Misticismo Gnóstico Luciferiano



Os manuais de Magia da Idade Média estão cheios de crenças judaico-cristãs, combinadas com evocações de entidades anteriormente ligadas aos cultos pagãos. Se formos levar em conta o fato, em torno do qual há uma concordância geral, de que as origens da Magia Ocidental estão, em última instância, em fontes semíticas e babilônicas, as coisas começam a ficar mais claras. A história também comprova que quando o cristianismo se tornou a religião oficial de Roma acabou transformando os antigos deuses e deusas do paganismo em simples demônios.


Ao aprofundarmos na teosofia bíblica do Antigo Testamento notamos que a história do Gênesis está baseada no Culto Ofidiano (culto à serpente) e na dualidade sexual da Serpente de Fogo (Shakti-Kundalini) que emana da Divindade eternamente oculta e inefável. No princípio de tudo a Divindade Pai-Mãe engendrou Adão Kadmon, o Logos Manifestado ou Demiurgo. Na Kabalah hebraica, o corpo de Adam Kadmon é a Árvore Sefirótica.


O andrógino Adão Kadmon é o primeiro Adão e a Alma do Mundo (Anima Mundi), foi o único feito à imagem e semelhança de Deus, é o Homem Celestial, o Verbo como Deidade Manifestada que tudo abarca. Por consequinte: “Todas as coisas foram feitas por ele, e nada foi feito sem ele…” (João - cap. I). Adão Kadmon, cria a Hoste dos Elohim ou Deuses, pela sua palavra, ao chamá-los (subentendendo-se “à criação do universo manifesto”). 


A Hoste divina de seres celestiais construiu o Universo com o Oceano ou as Águas de Nun, o Caos Primal. Nos livros mosaicos, a água e a terra representam a Matéria Prima e o princípio criador de nosso plano. Após isso, Deus (Elohim) disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. E os Elohim (Deuses) criaram os Adões – a humanidade - à sua própria imagem.








                       Mito de Adão e Eva


Textos gnósticos primitivos sugerem que o simbolismo de Adão e Eva oculta uma fórmula de polaridade sexual. Enquando Adão é ser coletivo, masculino e feminino ou a Mônada Divina (tanto no homem como na mulher), sua companheira Eva é a energia criadora em forma de Serpente que guardava os segredos da imortalidade e da sabedoria divina. Não podemos negar que a maioria e as mais primitivas das formas arcaicas da Deusa é uma cobra ou serpente. Assim como Eva do Gênesis, Astarte-Ashera, a Deusa do Templo de Salomão, muitas vezes era representada em forma de serpente. O mesmo ocorria com outras deusas dos cultos antigos associadas à Ashera como Tanith, Isthar e Isis. Durante o reinado de Salomão, Ashera se tornou consorte do Deus israelita Jeová e era conhecida pelos hebreus como uma personificação de Shekinah – o Espírito Santo ou presença de Deus no Reino da Manifestação. No Evangelho apócrifo dos Hebreus lemos que o próprio Jesus admitiu a natureza feminina no Espírito Santo, designando-o com a expressão de; “Minha Mãe, o Santo Hálito”.


Do ponto de vista do ocultismo moderno as Hostes de Seres Espirituais formam, no seu conjunto, a Energia do Terceiro Logos que é a Alma Universal ou Shekinah, a Consciência do Logos em seu aspecto criador (shakti), que trouxe nosso Universo à existência. A energia do Terceiro Logos era considerada por todas as nações arcanas como a Mente Universal; também chamada de Útero Cósmico, Sophia ou a Sabedoria Feminina pelos gnósticos.


A Tradição da Magia Ocidental sempre foi atribuída a Salomão e a Kabalah. Todavia, é claro que a Magia é anterior a Salomão tendo o seu complemento no misticismo oriental. É fato conhecido que o rei Salomão se relacionou não apenas com o Deus hebreu, mas também com divindades pagãs. Em particular, o Templo de Salomão foi construído à adoração da deusa Astarte, também conhecida como Ashera, “a Rainha dos Céus”. Como uma personificação de Shekinah a deusa Astarte ou Ashera simboliza a Alma Universal, a Matriz do Universo, da qual nasce tudo o que existe, por separação ou diferenciação, é a causa da existência. O simbolismo cabalístico de Shekinah preservou várias facetas perdidas das antigas deusas do Oriente Médio.


A união de Ashera e Jeová, a exemplo de outros casais divinos como Ball e Astaroth, Osíris e Ísis, Tamuz e Isthar, é representada nos pilares gêmeos do Templo de Salomão (Joachin e Boaz), que a nível físico representavam o poder fálico (solar) e da yoni (lunar), e a nível metafísico eram a Consciência Pura e sua manifestação como Energia Criativa Universal. Como uma versão bíblica dos mitos pagãos, Eva (a Natureza), a Serpente Mãe, deve ser fecundada por Adão para criar nela a Vida.


Todo esse simbolismo nos remete à antiga Nigromancia cujo misticismo encontra-se presente nas diversas manifestações do Culto Ofita, onde a Serpente e o Dragão figuram como totens principais. Aliás, nos mitos pagãos originais, a Serpente e o Dragão era um símbolo da Mãe Terra, mas com a ascensão das religiões patriarcais ou solares, foi gradativamente transformada em uma imagem do mal e dos poderes das trevas. No Egito, a face mais antiga da deusa é a da serpente Ua Zit, representada como uraeus (cabeça de cobra ereta) sobre a coroa do faraó. 


Também para os gnósticos ofitas, séc. II d.C., a serpente era uma encarnação da sabedoria divina, a mãe e professora de todo conhecimento transcendental. De fato, o símbolo da serpente contém os significados de sabedoria mística e intuição, que são dádivas da Deusa. Somente na Idade Média, com a diabolização dos cultos pagãos, é que o Culto à Serpente foi relegado à adoração do demônio. Foi assim que a Serpente da Gnose (conhecimento divino) passou a significar uma força maligna. Doravante, a Igreja Católica passa a associar o conhecimento ao mal e a mulher à Serpente enviada para Terra por Satanás. Ela fazia parte dos grandes flagelos, tal como as guerras, a fome e as epidemias da peste. Entretanto nem sempre foi assim, a Serpente e o Dragão eram os nomes que se davam aos Adeptos e Iniciados dos tempos antigos. Para os gnósticos ofitas foi à serpente que ensinou os Mistérios aos homens primitivos. E se alguns cristãos ainda insistem em associar a Serpente ao Diabo na Terra veremos que o Capítulo XXI do Livro dos Números do Antigo Testamento fala-se da Serpente de Bronze feita por Moíses e por ele erguida “ao alto”, em benefício dos israelitas e da qual o Evangelho de João (cap.III, versículo14) diz:


"Do mesmo modo como Moisés no deserto ergueu para o alto a Serpente de bronze, assim também é mister que o Filho do homem seja erguido para o alto."


Para os cabalistas os demônios habitam o lado reverso da Árvore da Vida. Essa Árvore “negativa”, “sombria” que está atrás da Árvore exterior manifesta, denomina-se mundo dos Qliphoth – o lado caótico, desequilibrado do Universo. Acreditamos que a origem espiritual das “forças qliphóticas” associadas ao panteão daemônico como Lilith, Azazel, Shaitan, Asmodeus etc. retrocede a gênese do Universo de onde surgem os deuses primordiais, nascidos do Abismo ou Caos Primal e do primeiro ponto (Kether). São considerados por todas as cosmogonias como “terrivelmente divinos”, pois absorvem o Universo projetado por eles mesmos no final de um ciclo cósmico. Seus nomes variam: Reis de Edon, Titãns, Asuras, Jotuns etc. conforme a terminologia. São os anjos luciferianos da Aurora da Criação ou Maha-Manvantara, as estrelas que surgem do Caos Primal. A mitologia de todos os povos afirma que os deuses da Luz procedem dos deuses das Trevas.


Também encontramos arquetípos ligados ao panteão daemônico (ou demoníaco) na mitologia da Mãe Terrível, que incorporava os aspectos do mundo inferior, do tártaro, do Caos da Noite do Tempo e que, originalmente, se manifestava sempre como escuridão e mistérios sombrios. Ela é a decrépita, velha ou avó, em resumo, é a primeira Mãe que os Tantras Hindus conhecem como Deusa Kali. Na antiga mitologia mesopotâmica é Tiamat, o nome da Mãe Universal como a Dragão Fémea do Caos original. No Egito pré-dinástico ela é Ta-Urt, uma forma primitiva da deusa céu Nuit. Em sua forma de Nuit ela é a Mãe Cósmica, a Deusa que precede todas as outras formas de Deidade, e que ao anoitecer engolia o deus-sol Rá, a Luz da Manifestação, no oeste e o expelia de seu ventre primal na manhã seguinte, a leste. Nela estão ocultos os esplendores radiantes do Sol nascente, que é seu filho como Logos – o Verbo Criador e senhor dos Deuses Excelsos ou plenamente manifestados Arcanjos Solares, os Sete Poderosos Espíritos ante o Trono.


Esse particular Ser Angélico conhecido como Logos, cujo veículo físico é o Sol, está entronizado no centro de nosso universo local. “Ali por todo o Manvântara, Ele está voluntariamente auto-sacrificado, não em agonia e morte e derramando suor e sangue, mas em êxtase criativo e vertendo perpetuamente força e vida.” (Geoffrey Hodson) No esoterismo dos Mistérios Angélicos a crucificação do Cristo Cósmico (não confundir com o Cristo Jesus histórico) representa o Logos Solar descendo à matéria. A encarnação de um Logos Solar, ou do Cristo Cósmico, é tida como o mais alto sacrifício. Ela era conhecida como Chrestus-Lúcifer entre algumas seitas de gnósticos que conheciam a verdadeira relação de Cristo com o Sol. Os Logoi Solares, seres cujos envoltórios são sóis, são representados em todas as religiões como uma força crística redentora da humanidade.


Embora a deusa egípcia Nuit personifique as águas da criação, e seja representada como uma mulher com jarro de água na cabeça, símbolo do que e maternal, fecundo e redentor, Ela também é a “porca que devora seus porquinhos”, ou seja, absorve todos os corpos e néteres (deidades) em seu próprio ser. A Grande Deusa em sua face terrível é NOX – a escuridão da Noite Cósmica que, como símbolo do inconsciente, absorve em seu útero escuro a luz (LUX) da manifestação universal ou a consciência-ego do iniciado. Aliás, mesmo no Universo, a matéria negra é cinco vezes mais abundante que a matéria estelar comum. Em todas as Cosmogonias antigas a Luz vem da Obscuridade. No Egito, como em todas as nações, a obscuridade foi o Princípio de todas as coisas. Daí que o Pensamento Divino saia como a Luz das Trevas. O próprio cosmos nasce da escuridão do caos; as estrelas nascem da escuridão infinita do espaço cósmico e os seres humanos nascem da escuridão do útero de suas mães, e retornam um dia para as trevas de seus túmulos. Da mesma forma, na Alquimia o Negrume ou Nigredo é um estado inicial, sempre presente no início como uma qualidade da Matéria Prima, do Caos ou da Massa Confusa. O conjunto da realidade, incluindo a Humanidade, é criada a partir dessa Matéria Prima não-física (a primeira matéria), o elemento mágico universal, que assume a forma dos elementos terra, fogo, ar e água. Como poeticamente expresso numa antiga oração rosacruz: “Que os esplendores hostis e multicores, pela Luz branca – síntese pacífica das cores – sejam restituídos a homogeneidade daquelas trevas materiais e sagradas, das quais se irradia a Luz Original.”


Sendo o Caos o princípio de todas as coisas, e o inicío da criação do Universo ao qual conhecemos, ele se assemelha a Kali-Nuit o ventre escuro de onde surge Lúcifer – o que traz a luz – daí que na Cosmogênese de Blavatsky está escrito: “(...) O primeiro Arcanjo, que emergiu das profundezas do Caos, foi chamado Lux (Lúcifer), o Filho Luminoso da Manhã (...) A Igreja o transformou em (...) Satã, porque era mais antigo e de mais elevada categoria que Jehovah...”
Em nossa tradição esotérica Lúcifer é o primogênito da Criação, o Portador da Luz Divina que desce a Terra como uma energia fálica criativa. Ele é o Logos Spermátikos, isto é o poder solar que dá forma a todas as coisas e tudo produz. Lúcifer nunca caiu, ele desceu e deu origem a lenda dos Guardiões ou Nephilim, os anjos caídos do pseudepigráfico livro de Enoch.


A queda de Lúcifer é uma alegoria Universal; representa a ação da Inteligência Cósmica do Absoluto diferenciando-se e criando diferentes planos da manifestação, a mente divina (Nous) que toma forma e busca união com a matéria. Nesse sentido, as forças escuras não são mais do que forças luminosas caídas na obscuridade e, em realidade, separadas do mundo espiritual da Luz Divina e esperando serem redimidas com sua origem. Lúcifer é o portador da Luz que caiu no ciclo terrestre, mas também é o guardião do fogo Interior, que vitaliza e sustenta a Terra, e sem o qual a vida não seria possível.